A Natureza Aprisionada

O meu ponto de partida para este texto não foi o Dia da Mulher mas sim o meu poema favorito, de Rainer Maria Rilke, “A Pantera”, do início do século XX.

“A Pantera” fala sobre uma pantera negra aprisionada numa jaula do Jardim des Plantes em Paris.

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É uma METÁFORA sobre a nossa natureza aprisionada, e na minha opinião sobre a desistência interior, sobre a impotência perante os nossos bloqueios.

É um poema ao qual recorro de vez em quando para perceber o que ainda me faz sentir sobre a minha natureza, sobre a minha essência e sobretudo sobre se a estou a viver.

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Imagino que muitas de nós nos sentimos em encruzilhadas, ou mal compreendidas, com a vida num turbilhão de emoções.

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Eu não sou aquela pessoa que te diz que a culpa é dos outros. Eu sou aquela pessoa que tenta dizer a si mesma antes de mais que tem de enfrentar as suas próprias questões e que nem sempre consegue. Mas não desiste de ser melhor.

APONTAMENTOS PESSOAIS:

Tive um período da minha vida durante o qual fiquei 2 anos sem trabalhar. Certa vez ouvi de uma conhecida que ela também gostava de ter vida de “dondoca” como eu. Aquela pessoa sentia-se tão mal com a vida dela ao ponto de ter de me chamar a atenção sobre a minha. Ainda por cima sem saber nada sobre como era REALMENTE o meu dia-a-dia. E mais: se eu quisesse ter uma vida “de ficar em casa” a cuidar da minha filha, tinha mesmo de me sentir mal com isso? Se calhar não…se calhar isso só me dizia respeito a mim e a quem vivia comigo.

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Tive imensas alturas em que tinha de viajar por causa do trabalho. Saía de casa às vezes às 5h da manhã e sabia que só voltaria 4 dias depois.

Também ouvi

“a tua filha deve estar a ressentir-se disso”. Ou seja, se ouvirmos demasiado os outros (ou os que opinam sem razão), é mau sair para trabalhar e construir carreira fora, é mau construir carreira dentro de casa :D.

Aos olhos dos outros, há sempre algo que está mal na tua vida. Mas será que está mesmo?

Mas o que PODE “estar mal” é:

  • tu comparares-te com as outras pessoas

  • tu não estares a fazer o que gostavas de fazer

  • tu estares a fazer o que tanto gostavas de fazer e não seres persistente nisso

  • estares a fazer o que queres e achares que toda a gente te vai ajudar: NÃO VAI nem tem de o fazer

  • estares a adiar uma decisão inadiável

  • tu não estares a dar a ti mesma um espaço para estares sozinha e fazeres alguma coisa QUE TU QUEIRAS de vez em quando

  • tu não celebrares o facto de estares viva e teres saúde

Há coisas que nunca ninguém vai entender ou aceitar, porque não é suposto. É suposto sim, nós fazermos tudo o que está ao nosso alcance para nos sentirmos um bocadinho melhor na nossa pele.

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Tive um momento na minha vida em que estava a cometer um enorme erro e uma das pessoas mais importantes da minha vida disse-me:

“SE FORES POR AÍ NÃO CONTES COMIGO”

Era a voz da minha intuição pela boca de outra pessoa. Aquela intuição que eu estava a aniquilar com cada decisão errada (contra a minha natureza) que tomava. (este tema dá todo um novo texto que está para breve)

Parece mau, sim. Mas foi a melhor coisa que me aconteceu porque me deu o abanão que eu precisava para perceber aquilo que eu precisava.

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Há momentos em que a tua vida vai mudar e muita gente não te vai acompanhar mas se calhar a tua família ou as pessoas que sempre te apoiaram vão estar lá para ti, independentemente da pessoa em quem te queiras transformar. Isso não significa contudo que vão andar contigo ao colo, nem quer dizer que se vão identificar com o que estás a fazer. Para eles tanto faz, desde que assumas as mudanças e sejas responsável por elas. Que sejas feliz. Que estejas bem.

O problema pode estar no facto de não te sentires bem contigo.

Deixo-te estas duas perguntas, que me têm acompanhado nos últimos meses:

QUAL É A TUA VERDADEIRA NATUREZA?

ESTÁS A VIVÊ-LA?

Fica com o poema:

“A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Augusto de Campos)

(No Jardin des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.”

Obrigada 🙂

Ama-te e cuida de ti ♡

Joana Amoêdo Leite

LIVROS QUE INSPIRARAM ESTE TEXTO:

ESTES, Clarissa Pinkola. Mulheres que dançam com lobos. Editora Marcador, 2016 (1ª edição é de 1999)

SANDBERG, Sheryl. Lean In/Faça Acontecer, Companhia das Letras, 2013

4 thoughts on “A Natureza Aprisionada

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